Tem preto que só lembra que é preto quando é agredido, dispara MV Bill

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Rapper lança EP com show no Circo Voador amanhã

RICARDO SCHOTT 
MV Bill: ‘Quando assisto à televisão, tenho a impressão que gravam os programas na Alemanha. Não há pretos’

Foto: Divulgação

Rio – Morador da Cidade de Deus mesmo depois de ter se tornado uma figura conhecida , o rapper MV Bill não precisou pesquisar muito para fazer as letras de seu novo EP, ‘Contemporâneo’, que lança amanhã com show no Circo Voador. “Conheço muita gente, pergunto para as pessoas como elas vivem. E sei que muitas pessoas acham que é só na favela que tem traficante ou usuário de drogas. O olhar das pessoas está muito estereotipado”, exclama. O rapper abordou o dia a dia de um garotão do asfalto que trafica drogas em ‘Cêélouco’ e falou da questão policial por vários ângulos em ‘Incursão Policial’. E diz que ele mesmo, quando não é reconhecido, está sujeito a um tratamento “hostil, desdenhoso”, por parte de PMs.

“O racismo, que era latente, vem se mostrando menos velado, né? O Brasil é um país muito racista e que tem que discutir o próprio racismo”, diz Bill, já escaldado com os ataques racistas sofridos recentemente por atrizes como Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes em redes sociais. “Já sofri isso várias vezes mas nunca levei para a imprensa, nem fiquei de mimimi, porque ao longo da vida nunca cochilei. Desenvolvi várias respostas para quem me ataca, e em especial para quem me ataca racialmente. Deixo o cara numa posição tão esdrúxula que ele vai lá e apaga o post”, garante.

O rapper não se sente muito animado com a possibilidade de levar casos como esses à justiça. “É crime, mas essas leis não prendem ninguém. O cara cai na injúria, paga fiança, sai da cadeia e eu fico na maior dor de cabeça, indo em delegacia. Prefiro responder à altura e se o cara se expôs, a maior pena é a exposição”, conta. “Não torço para que ninguém sofra as mesmas agressões que sofro, porque nem todo mundo tem a mesma estrutura. Mas tem muito preto que só lembra que é preto quando é agredido. E ser preto é um exercício diário. Falo sobre a questão racial toda hora em debates, ou em conversas com amigos. Vejo TV e os diretores parece que gravam na Alemanha. Você vê poucos pretos”.

Apresentador de rádio (faz o ‘A Voz das Periferias’ na Rádio Roquette-Pinto FM) e de TV (no Canal Brasil comanda o ‘O Bagulho é Doido’ e na TV Brasil o ‘Aglomerado’), ele aproveita os canais disponíveis para falar dos assuntos que vive em seu dia a dia. Bill recusou recentemente alguns convites para participar de debates em programas de TV sobre o dia da consciência negra (20 de novembro). Mas explica o motivo.

Bill malhando coma garotada da Cidade de Deus

Foto: Reprodução

“Essa consciência a gente tem que ter todos os meses. Não adianta ter só no dia 20 de novembro. Tem que tem em dezembro, janeiro. Há pouco espaço para esse tipo de discussão”, diz Bill, acompanhando o caso dos policiais presos após fuzilarem um carro com cinco jovens, próximo ao Complexo da Pedreira, na Zona Norte. “Nunca tivemos uma polícia que matasse tanto, e um número tão grande de policiais mortos. O sistema é falho. Há policiais honestos, que não são corruptos, e o silêncio deles contribui para o triunfo dos que fazem errado”.

Prepare-se para o Hip Hop

Para o lançamento de ‘Contemporâneo’ — que inclui cinco raps inéditos e mais outros quatro lançados em separado anteriormente — MV Bill promete uma festa de rap na lona da Lapa. “Lá em São Paulo é muito comum haver festa de hip hop, festa black no meio da semana. No Rio não há esse tipo de tradição, mas vamos trazer esse conceito para cá e vai ser bem legal”, conta Bill, preparado para receber alguns convidados durante a apresentação no Circo Voador. Os DJs convidados são Tamy e Andrey, a abertura fica por conta da banda Antiéticos e no meio do show do rapper, surgem o novato Ramonzin e a veterana Nega Gizza. “Ramonzin é um cara que tá começando e fala coisas muito legais nas letras. Já a Nega Gizza fez diversas paradas comigo no passado e botei uma pilha para ela estar lá no show. Consegui tirar a Nega Gizza de casa para ela subir no palco do Circo Voador!”, comemora. “Já o Antiéticos é um grupo no qual eu aposto bastante minhas fichas”.

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